[2017] Nem Tosco Todo: “Em Conquista você só tem duas opções: ir pro bar ou pra igreja”

Foto: Blog do Fábio Sena

"O Brasil é um país muito grande e diverso. Tem público para todos. O que acontece é que existe o poder midiático nas mãos de poucos empresários, que não tem interesse em um trabalho mais consistente."
Por Maurício Sena / Fábio Sena

Nem Tosco Todo, líder da Banda Cama de Jornal, é um clássico roqueiro: não admite assinar o Pacto da Mediocridade que, vai aos poucos, ganhando signatários Brasil e mundo afora, também não assume postura de condescendência com certa imbecilidade que teima em fazer residência na sociedade. Engajado e formidavelmente compenetrado na arte de fazer rock – para ele, ferramenta de conscientização, de revolução -, nesta entrevista ao jornalista Maurício Sena Nem Tosco Todo volta à carga com sua proverbial habilidade em difundir pensamentos originais, e uma filosofia de vida cuja principal premissa é a fuga das estéreis convenções sociais, marca predominante de um dos integrantes da banda mais repeitada do punk em Vitória da Conquista e região.

Na visão do roqueiro, é preciso construir ainda uma efetiva política cultural em Vitória da Conquista, vez que, em sua visão, não se pode admitir como “política cultural” a realização de dois grandes eventos por ano (São João e Natal da Cidade). “E é isso que a prefeitura tem feito, através da Secretaria de Cultura”. Em relação ao Governo do Estado, sua crítica vai em direção à burocracia que, muitas vezes, inviabiliza a realização de projetos de boa qualidade. No entanto, pouco afeito à institucionalidade, Nem manda um recado àqueles que pretendem desenvolver um projeto próprio: “Se as pessoas não demonstram interesse em seu trabalho, ou até mesmo não reconhece você como artista, organize você mesmo suas turnês e shows fora daqui. Enfim, se você quer, você pode! Faça você mesmo”.

Abaixo uma vigorosa manifestação de rebeldia, recheada de refinado senso de humor e uma profunda vontade de realização:

Quem é Nem?
Nem: Rapaz, até hoje ainda não descobri. Tô nessa busca de saber quem eu sou de fato. Talvez eu seja aquele cara simples, mas que não se enquadra nesse formato de sociedade, que não vislumbra a necessidade de ter algo para ser feliz, que está em constante conflito consigo mesmo e com o mundo ao seu redor.

Como começou a relação com o Rock?
Nem: Veio na minha adolescência. Acho que surgiu dessa minha inquietação. Dessa minha busca por uma identidade que não fosse óbvia e que não me levasse junto com a multidão. A partir daí, comecei ouvir algumas bandas de rock, que tinham letras que também refletiam os meus sentimentos e questionamentos.

Como nasceu a Cama de Jornal?
Nem: Eu já acompanhava a cena rock local, desde o final dos anos 80, com bandas como Atestado de Pobreza, NRU, Depressivos, dentre outras, rolava uns shows. Mas já os anos 90 foi sofrível pra cena rock de Conquista. Nada acontecia pra quem gostava do estilo. E foi já no ano 2000/2001 que eu vi o ressurgimento da cena com bandas como Renegados, que vinha com a proposta de fazer um punk hardcore, produzindo seus próprios eventos, pela periferia da cidade. E eu achei bacana essa proposta, e em um show em Poções, eu conheci Lázaro e Rose, e resolvemos então montar a Cama de Jornal. Isso foi em 2001. E de lá para cá, já gravamos 4 CDs de estúdio, uns 3 CDs ao vivo, vários DVDs, muitos shows rolaram, turnês por São Paulo, Nordeste, Goiânia, Brasilia, e muitos pela Bahia. Esse ano completamos 15 anos de banda, é muito tempo… Acessem nosso site e conheça mais sobre a banda: www.camadejornal.com.br.

Por que tosco todo?
Nem: Esse nome surgiu quando a gente tava pra lançar o nosso primeiro cd e não tínhamos nenhuma gravadora ou selo para lançá-lo. Aí eu criei esse “slogan” pra colocar impresso no CD. Depois eu criei um selo de divulgação de bandas, que tinha esse mesmo nome, depois virou site com resenhas de cds de bandas independentes; mas recentemente é um blog de divulgação de entrevistas e lançamentos do underground. E ainda com o selo de divulgação, eu apoio alguns lançamentos de bandas, como Horda Punk, Misantropia, Guerra Urbana, dentre outras. e também através do selo foi lançado todos os materiais da Cama de Jornal, e também do meu projeto paralelo “Nem Tosco do e as crianças sem futuro”. E já lancei também um DVD-R do Cólera, gravado aqui em Conquista. E algumas coletâneas também como: Autonomia é o caminho(CD) e Material Reciclado (CD), disponíveis em http://toscotodo.blogspot.com.br/.

Como você analisa o Rock em Vitoria da Conquista de ontem e de hoje?
Nem: Então, como eu falei, Conquista sempre rolou uma galera do rock, sempre teve banda. Em uma época teve mais, em outras menos, mas sempre teve essa movimentação. Quem conhece um pouco sobre a história do rock de conquista sabe que desde os primórdios, nos 60/70, aqui já tinha banda de rock, que imitava os Beatles, como “Os Imborés” e “Os Trepidantes”. Tinha o SS433 que chegou até a lançar um compacto, várias bandas vinham trabalhando com o rock na cidade há muito tempo. A diferença para a cena de hoje é que o número de bandas aumentou, o público de rock também. Mas Conquista sempre teve o rock rolando.

Quais as bandas que melhor representam esta história do rock de conquista?
Nem: Então, como falar de bandas históricas se você não citar essas antigas, dos primórdios? Não tem como. Faziam rock no interior da Bahia naquela época, sem nenhuma estrutura. Bandas como “Os Imborés”, Atestado de Pobreza, Renegados, pra mim, apesar de serem de épocas bem distintas, foram bem importantes pra tudo que ta rolando de rock hoje em Conquista. Se não fosse por eles, a cena local talvez nem existisse como vemos hoje.

O Rock de protesto é uma vertente que ainda vigora?
Nem: Eu não gosto muito dessa denominação “rock de protesto”. Eu acho que o rock pra mim é uma ferramenta de conscientização, de revolução mesmo. E infelizmente o rock tem perdido um pouco essa veia, e com isso sumiu da periferia, que hoje tem uma força muito grande com o hip hop como ferramenta de transformação da comunidade onde está inserido. O punk já teve esse papel no Brasil, no final dos anos 70, início dos anos 80, mas hoje em dia o protesto que vem da periferia é o Hip Hop.

Como você avalia o rock em nível nacional?
Nem: O rock brasileiro sempre teve e sempre terá grandes bandas. Se você pesquisar vai encontrar muita banda legal, de todos os estilos do rock, punk, metal, rock and roll. Agora se você estiver se referindo ao rock comercial, o que passa na TV ou toca no rádio, esse aí já tem muito tempo que morreu.

Quais são as grandes novidades locais, no estado e no país?
Nem: Eu não vejo muitas novidades, e na verdade quando vejo algum artista sendo rotulado como “novidade”, eu já fico com o pé atrás. Mas aqui em Conquista mesmo, tem uma galera fazendo um rock legal, que não é nenhuma novidade, como a Dost, Dona Iracema, Ladrões de Vinil, Signista, Social Freak, Handevu, e tem uma galera mais underground, como a Krathera, Assault, Thrashard e várias outras que se eu for citar aqui vira um livro. Bandas baianas, tem O Cisco, banda muito boa de Ribeira do Pombal, Os Jonsons, de Salvador, Pastel de Miolos de Lauro de Freitas, Vômitos de Barreiras. Tem muita coisa rolando por aí. No Brasil, eu acompanho as bandas independentes mais undergrounds, e posso citar algumas, como a Penúria Zero de Brasilia, Aorta de Recife, Protesto Suburbano do Rio de Janeiro, que não são bandas relativamente novas, mas que estão sempre tentando produzir shows e discos. Mas tem uma banda de rockabilly chamada Asteroides Trio, que gravou recentemente um DVD em que mistura releituras de músicas punks com rockabilly, e eu gostei bastante.

O roqueiro conseguiu manter sua imagem após tantas transformações de comportamento?
Nem: Qual a “imagem do roqueiro”? Aquele que veste uma camisa do Ramones que comprou no shopping, sem nem ao menos conhecer a banda? O rock já esteve ligado a imagem subversiva, suja, largada, em outras épocas foi mais estilizada, e infelizmente isso gerou os estereótipos de “roqueiro”. Eu vejo que ser rock and roll está mais vinculado com postura ideológica, não com visual. Agora se você fala de “imagem do roqueiro” num contexto mais subjetivo, eu acho que o roqueiro de hoje tá muito reacionário, veja dois exemplos: Lobão e Roger. Dois caras que vieram do meio do rock, e todo mundo sabe como eles pensam hoje, né? E até no meio underground, no meio punk também, hoje tem uma pá de babaca que fica idolatrando Bolsonaro, um cara escancaradamente fascista. Enfim, gente que muda de postura no rock, tem de monte, e gente que prega uma coisa e faz outra, também tá cheio, ou seja, idiota e burro, tem em todo lugar. Então as mudanças de comportamento na sociedade acontecem constantemente, e com isso, gera toda essa confusão ideológica por parte daqueles que não são do rock, na sua essência.

Como você analisa a política cultural em nossa cidade?
Nem: Eu diria que não existe ainda. E explico… gerir uma política cultural não é realizar 2 eventos no ano (São João e Natal da Cidade). E é isso que a prefeitura tem feito, através da Secretaria de Cultura. Já por parte do Governo do Estado, é uma burocratização tamanha que leva muitas vezes bons projetos a não serem aprovados nos editais. Mas recentemente surgiu uma luz no fim do túnel, foi instituído o Sistema Municipal de Cultura que dentre outras coisas visa a criação do plano e do fundo municipais de cultura. O que se espera é que com isso facilite bastante o acesso de artistas aos recursos para a realização de projetos mais elaborados, e isso vai ser muito bom para a cidade, não só para os artistas, mas principalmente para o público carente de opções de lazer, já que aqui em Conquista você só tem duas opções: ir pro bar ou pra igreja. Vamos ver se vão ocorrer ações efetivas para mudar esse cenário. Eu espero que sim.

Quais as principais dificuldades para se produzir eventos?
Nem: Se você não tem apoio do governo pra realizar seus eventos, a situação é ainda pior quando se fala em apoio privado. Então, o que a gente faz, reúne uns amigos, um ajuda aqui, outro ali, e fazemos. É assim que tem acontecido por aqui, e na maioria das vezes, o dinheiro arrecadado na bilheteria, não dá pra cobrir todos os custos do evento. Na verdade, eu quando faço algo, é por querer movimentar, e por acreditar no que faço.

Quais os caminhos para uma banda nova, qual seria seu conselho?
Nem: Eu acho que não sou o cara ideal pra dar conselhos, mas o que posso dizer é que se você tem uma banda, quer gravar um disco, ou quer viajar em turnê, a solução nesse momento (e desde muito tempo atrás) é “fazer você mesmo”. Se hoje a Cama de Jornal tem algum material gravado, é por conta desse lema que a gente adquiriu através do movimento punk. No final do ano passado a Cama de Jornal deu uma parada por conta que nosso baixista viajou a trabalho. E eu parei de fazer som? Não. Peguei um projeto paralelo que eu tinha gravado um CD, e organizei vários shows pra gente tocar e divulgar o material. E recentemente, já estamos em processo de composição de um novo CD totalmente inédito e autoral. Então, se você quer tocar e ninguém chama sua banda, organize você mesmo o seu show. Se você tem um disco mais nenhuma gravadora ou selo independente se interessa, grave e lance você mesmo. Se as pessoas de sua cidade não demonstram muito interesse em seu trabalho, ou até mesmo não reconhece você como artista, organize você mesmo suas turnês e shows fora daqui.
Enfim, se você quer, você pode! Faça você mesmo!!!

O que falta para termos mais mulheres no universo rock, especialmente protagonizando a cena?
Nem: Eu acho que as mulheres que tinham esse interesse de ser protagonista conseguiram ser. Conquista já teve várias bandas de rock formadas por mulheres, como a Mistaken, a Blas Femia e a Tomarock. Hoje em dia tem a Nobres Companios que é uma mulher no vocal, mas não sei se estão ativos no momento. Tem a Old Stove que tem Marcela como baixista. E tem Brenda, tocando baixo comigo no meu projeto “Nem Tosco Todo e as Crianças sem Futuro”. Brenda tocava na Blas Femia. As mulheres estão sempre presentes na cena, seja como público ou como integrantes de bandas.

A cultura de massa, o apelo comercial atrapalha a formação de consumidores de rock e gêneros afins?
Nem: Acho que não. O Brasil é um país muito grande e diverso. Tem público para todos. O que acontece é que existe o poder midiático nas mãos de poucos empresários, que não tem interesse em um trabalho mais consistente, eles querem uma coisa mais imediata, retorno imediato de investimento, e trabalham com esses “produtos” descartáveis, para poder tá sempre em constante “renovação de estoque”. Eles fazem como os fabricantes de roupas, todo ano renovam o estoque e sempre surgem “novidades”. E o rock não, eles até tentam fazer isso com o rock de vez em quando, criando “novos produtos” que logo as pessoas percebem que eram produtos “falsificados” ou de “baixa qualidade”, mas que não funcionam por muito tempo, porque o rock verdadeiro não tem prazo de validade, é atemporal.

Quem são as crianças sem futuro?
Nem: eu estava montando esse projeto e achei que se colocasse só meu nome Nem Tosco Todo ia ficar estranho e resolvi montar uma banda que eu chamei de “As crianças sem futuro”, uma forma de homenagear a banda Ratos de Porão que tem uma música com esse nome. Como o primeiro CD do projeto era uma homenagem a todas as bandas que me influenciaram de alguma forma no meio punk, ficou esse nome mesmo: “Nem Tosco Todo e as Crianças Sem Futuro”. E também, não deixa de ser uma crítica a forma como nós, sociedade, tratamos nossas crianças. E olhando de uma forma mais ampla, qual o futuro dos nossos filhos? São reflexões que o nome da banda pode trazer a tona. E a propria capa do nosso primeiro CD é a foto de crianças da fundação casa, em são paulo, em fila, todos com a mesma roupa, formando um padrão. Será que é esse o padrão que queremos para nossas crianças? O que temos a oferecer para elas? Estamos fazendo nossa parte para transformação desse quadro? São questionamentos que um simples nome pode trazer.

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Distintivo Blue - Entrevista Pauta Sonora Mega Rádio (16/11/2016)

I. Malforea, Euri Meira, Lavus Bittencourt e Nephtali Bitencourt

Participação da Distintivo Blue no programa Pauta Sonora, na Mega Rádio. Comandado pelo músico Euri Meira, o programa contou com quase uma hora de bate-papo com os Joes, intercalados com músicas. Confira:







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Distintivo Blue: entrevista Band FM (13/01/2017)


I. Malforea e Rodrigo Bispo no Baixo em entrevista ao Band Revista (Band FM 99,1 - Vitória da Conquista/BA), falam rapidamente sobre a banda, subprojetos, as CCCJL Sessions e a cerveja Distintivo Blue American IPA. Na foto, com Sheila Lima.







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[2017] Livro sobre cenário underground baiano é lançado esta semana, com capítulo dedicado ao blues


O cenário chamado "independente" cresce a cada ano, e não apenas no campo da música: hoje existe todo tipo de criador de conteúdo, de música a games, filmes e também livros, se esforçando e conquistando seu espaço sem depender de grandes empresas, muitas vezes alterando características fundamentais de cada trabalho. Em Vitória da Conquista, sudoeste da Bahia e cidade-natal da Distintivo Blue / BLUEZinada!, será lançado, neste domingo, o livro A Conquista do Rock, de Raquel Dantas, pela editora Multifoco (RJ).

A obra faz um belo apanhado sobre a música independente na cidade, desde tempos remotos. São relatos, fotos, letras de música e uma interminável lista de bandas, boa parte já inexistente, que formaram um dos mais importantes cenários musicais do nordeste. Com cada capítulo direcionado a um estilo, seguido de uma vasta bibliografia, a leitura é agradável e fácil, possibilitando mais liberdade de leitura. Basta escolher qualquer dos capítulos, na ordem que desejar e mergulhar nesse intenso universo local.

O estilo predominante no livro é o rock, mas também há um capítulo dedicado ao blues, focando-se nas trajetórias das bandas Café com Blues e Distintivo Blue, que tiveram grande ligação entre si. Esse tipo de trabalho é de grande importância para o registro da história cultural, já que o recorte nacional, mais amplo, se visto mais de perto é formado justamente por inúmeros recortes locais: não é possível compreender a realidade voltando-se apenas ao que acontece nas capitais: muitas vezes há mais acontecendo nos interiores, inclusive.

O livro já está à venda pelo site da editora. Aproveitando o lançamento previsto para este domingo, no Centro Cultural Glauber Rocha, em Vitória da Conquista-BA, nada melhor que a própria autora nos contar um pouco mais sobre o livro. Confira nossa entrevista:



BLUEZinada! -  Antes de tudo, quem é Raquel Dantas?

Raquel - Raquel Dantas é conquistense, filha de professora e também escritora. Desde pequena sempre gostou de desenhar e escrever, motivos que levaram a ter interesse pelas ciências humanas, chegando a cursar Pedagogia pela universidade pública local (UESB). Porém acabou desistindo para buscar o que realmente goste de fazer e faça bem, como se dedicar à escrita e as artes visuais. 

B! -  Qual sua relação com o cenário da música independente conquistense?

R - Minha relação com o cenário nasceu do convívio familiar. Cresci perto de vários músicos e o meu irmão acabou se tornando um dos principais produtores culturais da cidade, então fui acompanhando várias bandas e eventos que aconteceram ao longo do tempo. Com o crescimento da tecnologia, passei a acompanhar tudo, sem precisar sair de casa, ouvindo e pesquisando sobre os novos artistas locais. 

B! -  Como surgiu a ideia do projeto do livro?

R - A ideia veio da necessidade de fazer algo que eu gostasse e interessasse em fazer. Havia parado a faculdade, estava bastante desanimada com a prática e queria fazer outra coisa. Foi aí que o meu irmão sugeriu escrever um livro sobre o rock conquistense. E como ninguém nunca havia escrito sobre isso em forma de livro, eu resolvi seguir o conselho e ver onde isso me levaria. 

B! -  Uma vez decidido iniciar o projeto, o que você teve de fazer para torná-lo concreto?

R -  No início eu não queria contar só sobre o cenário local. Eu queria achar uma forma de falar sobre o crescimento das bandas e, ao mesmo tempo, compartilhar o que eu sabia sobre a música independente em geral. Eu não queria ficar enchendo o saco dos músicos toda hora atrás de algo. Então o primeiro passo foi a pesquisa e leituras sobre o tema e especificar isso. Só depois resolvi buscar contatos das bandas pelo Facebook e e-mails. Essas plataformas foram fundamentais para conseguir material dos artistas. Fiz um questionário simples e fui enviando. Com base nele, busquei matérias, entrevistas, até que, com o tempo, me espantei com a quantidade de material que havia na internet. Fiquei me perguntando se o público local tinha conhecimento daquilo, se lembravam de tudo. Enfim, cada vez que eu pesquisava encontrava um caminho para montar uma estrutura legal para cada capítulo. Como encontrei muitas bandas ativas, consegui especificar o tema, e mostrar como aconteceu o crescimento dessas bandas na cidade, partindo de suas maiores influências, como o blues, heavy metal e seus subgêneros, etc. 

B! -  Quais as maiores dificuldades encontradas durante o processo de composição do livro?

R - Nossa! Muitas. Mas acredito que as piores dificuldades vieram no início e finalização do livro. No início eu estava bastante perdida nas pesquisas, sem saber como me guiar, já que é um tema amplo. São muitas bandas e se não encontrar um objeto específico da pesquisa, não tem fim. O que me ajudou mesmo foi a leitura de terceiros, pessoas que estavam interessadas mesmo no tema e ler de maneira crítica. Na medida em que fui mostrando e pesquisando, fui sabendo como moldar os textos e torná-los mais simples e interessante a leitura. Durante a pesquisa muita banda foi surgindo e o aprendizado foi o que me impulsionou a concluir isso de forma mais prazerosa. A cada material que encontrava, seja fotos, vídeos ou letras, ficava feliz. Eu nem imaginava conseguir tanta coisa e foi dando certo. Já no fim, o processo ficou mais cansativo, momento em que bandas mudavam integrantes, algumas acabavam, outras começavam e eu descobria algo novo. Foi bastante exaustivo o processo de revisão e como publicar foi outra dúvida que me acompanhou por um bom tempo. 

B! -  Uma vez terminado o texto, como se deu o processo de publicação?

R - A ideia no início era fazer um financiamento coletivo para ajudar na publicação. Estava bastante desanimada e totalmente sem grana para fazer isso acontecer, de transformar em um livro que todos pudessem ter acesso, impresso. Eu não queria jogar na internet, porque já tem tudo, porém muita gente não sabe. E ter o próprio livro em mãos é o mais legal, uma sensação inexplicável. Então, enquanto eu pesquisava uma forma de tornar a campanha de financiamento coletivo interessante e revisava o trabalho, fui recebendo indicações de editoras. No final de 2016 eu recebi uma matéria de uma amiga pelo Facebook sobre uma editora que ajudava os autores a publicar o livro de forma gratuita. Eu acabei encontrando a Multifoco. Mandei o material para ver no que dava e tomei um susto quando meu trabalho foi aprovado. E poucas semanas depois eu já tava com o contrato e segui adiante. Era a melhor forma para mim no momento, porque, no fundo, eu estava com bastante medo de não conseguir o dinheiro necessário no financiamento coletivo. Então fui adiante e hoje realizei o sonho de ter meu próprio trabalho publicado e impresso.

B! -  Como você imagina que seja a recepção pelo público, sobretudo local? Isso considerando que as próprias bandas também fazem parte dele.

R - Acredito que será uma surpresa pra muita gente e, ao mesmo tempo, terei críticas, já que não há como agradar todo mundo. Mas, no geral, vão enxergar isso como um impulso para manter a cena musical alternativa viva na cidade. Pois o objetivo maior do trabalho foi mostrar que o cenário cresceu nos últimos anos, mesmo com todas as dificuldades. Muitas bandas e demais artistas conquistenses conseguiram produzir seu próprio trabalho e divulgá-lo, seja tocando ou por meios das plataformas digitais. 

B! -  Você pesquisou e abordou o cenário da música independente conquistense em várias fases. Como você resumiria cada período desse e como você definiria a atual fase?

R - Acredito que não dá pra dizer que o cenário musical de Vitória da Conquista foi melhor em tal década do que outra. O que vem acontecendo é que, com o passar dos anos, novos artistas e festivais vão surgindo, enquanto outras se desintegram. Nenhuma banda sobrevive pra sempre. No início dos anos 2000 havia muita banda cover, mas isso não quer dizer que foi ruim, pois o público comparecia em peso aos eventos. Também não posso dizer que depois disso nada de bom aconteceu. Pois muitas bandas passaram a gravar seu trabalho e a cidade passou a receber artistas independentes e de fora com mais frequência. Ou seja, o cenário está sempre se renovando e isso é um sinal bastante positivo, sinal de que as bandas estão amadurecendo, o que falta é o público acompanhar isso.


B! -  Agora que você já conhece o processo de transformação de uma simples ideia em algo concreto, já possui alguma ideia de um próximo trabalho?

R - Eu pensei em fazer um trabalho que englobasse apenas grupos com integrantes femininas. Mas, apenas como uma ideia, pois nenhum será tão importante quanto esse, porque acompanhei de perto e fiz com mais segurança. Eu teria que pesquisar bastante outras cenas e levaria mais tempo para falar com mais propriedade. Mas, creio que as ideias vêm como consequência deste primeiro livro. Talvez eu amplie o tema, e acrescente mais coisas depois. Por enquanto pretendo dedicar ao desenho e tentar sobreviver disso no futuro, dando aulas, etc. 

B! -  Que conselho a Raquel com seu primeiro livro em mãos daria à Raquel (ou qualquer pessoa) que ainda considerava isso um sonho distante ou talvez utópico?

R - O melhor conselho, e é uma coisa que aprendi escrevendo, é aproximar de pessoas que acreditam no seu projeto. Isso é fundamental pra seguir em frente e não desistir. Só consegui realizar isso porque tive apoio e é do interesse de muita gente, caso contrário, sabe-se lá o que aconteceria. Talvez ainda estaria em dúvida se continuaria com isso.

B! -  Livros como o seu possuem duas funções básicas: o registro da história e a detecção de eventuais problemas a serem resolvidos. Há algum aspecto da cena independente atual que você considere prejudicial ou que impeça um crescimento maior? E o contrário?

R - Sim, sempre tem uma dificuldade que impossibilite uma banda ou artista manter o trabalho e conseguir maior reconhecimento. Uma delas, com certeza, é o fato de precisar de outro trabalho ou emprego parar se manter e continuar na música. Como consequência, muitas bandas perdem tempo procurando ou trocando integrantes. Faltam mais bateristas, tecladistas e pessoas que tenham objetivos parecidos para se manter ou formar um projeto. Outra dificuldade, é a perseguição dos vizinhos com os eventos alternativos locais. Há todo um trabalho para conseguir realizar um evento independente e quando acontece, os grupos são impedidos de continuar por conta da reclamação do som, passando das 22 horas. Às vezes, nem chega à isso e vem logo uma reclamação de alguns vizinhos. O pior de tudo é saber que é só uma desculpa para tentar impedir que os eventos aconteçam, por simplesmente, não corresponderem ao estilo da maioria, por preconceito com o público underground. Por outro lado, a cidade continua recebendo bandas e artistas internacionais, com o público comparecendo mesmo no meio da semana. Grupos locais continuam gravando e lançando seus materiais, enfim, é uma cena que vai sempre e renovando e isso é o mais importante.

SERVIÇO
O que: lançamento do livro A Conquista do Rock, de Raquel Dantas + Prévia do Listen Rock
Onde: Centro Cultural Glauber Rocha
Quando: domingo (28 de maio) às 16h
Quanto: 0800
Mais informações: clique aqui

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Publicado originalmente em 25/05/2017, na BLUEZinada!

[2017] Renegados lança CD Futuro sem Cor


A banda Renegados, de Vitória da Conquista, acaba de lançar seu mais novo CD. Intitulado "Futuro sem Cor", esse é o segundo material da banda. Conversei com Dani, vocalista, e ele falou um pouco sobre a história da banda como também sobre o lançamento do CD. Se ligue e ouça aqui no Tosco Todo!!!

A banda é de 2000, mas durante esse tempo, mudou bastante de formação e até deu uma pausa nas atividades depois do lançamento do primeiro CD. O que levou a isso e qual a motivação para a volta e o CD novo?
Dani - Na verdade a ideia da banda nasceu em 2000, logo após ter conhecido Xuxa (Filemon), mas só veio mesmo ser posta em prática no início de 2001. Após a estreia da banda em março de 2002, na Festa da Babilônia 2, e depois disso vivemos um momento muito intenso de apresentações. Na formação original era eu o vocal, Xuxa (baixo), Marcio Ventríloquo (guitarra) e Cessar (bateria). Só que na bateria não parava ninguém por muito tempo e a banda estava constantemente buscando o baterista que se enquadrasse no perfil do grupo. Depois da gravação do primeiro CD ouve também outras mudanças na formação e começou a complicar a coisa quando eu tive que ir trabalhar e morar em outra cidade, então começou a diminuir a quantidade de shows por conta disso, mas ainda assim seguimos com a banda até que tive que me mudar para Bom Jesus da Lapa e devido a distância não possibilitar os ensaios cheguei a pedir que Xuxa seguisse com a banda,pois para mim ficaria inviável. Xuxa chegou a tentar assumir os vocais para seguir, mas depois desanimou e disse que essa não era a sua praia e com isso a Renegados chegou a acabar em 2008. Cheguei a tocar em uma banda punk na Lapa, (Ratoeira), mas surgiu a oportunidade de voltar para Conquista e não pensei duas vezes.
Em setembro de 2012, ao retornar para minha city natal, procurei Xuxa , Beto e Reinan (ultima formação da banda até então), e marcamos um show de “Reunião" na Festa da Babilônia 3 (março de 2013), que aconteceu na Casa Fora do Eixo. Seria a primeira tentativa de voltar com a banda, mas esbarramos em um outro problema, o fato que Xuxa já havia se mudado para Salvador e não poderia continuar na banda.
Enquanto esperava que ele mudasse de ideia e voltasse para os Renegados, resolvi criar uma banda cover dos Garotos Podres (Mais Podres) e convidei Niel, Reinan e Anderson para o projeto que chegou a se apresentar em dois eventos: (Autonomia é o Caminho e Rock na Serra).
Como Xuxa resolveu que não voltaria para a banda por não poder morar em Conquista resolvi convidar Christian para guitarra, Niel para o baixo, Reinan seguia na bateria e eu nos vocais. Assim se formou a “nova era Renegada”. Fizemos um retorno muito bacana no evento “A CONQUISTA DO ROCK” que rendeu um DVD ao vivo do qual participamos juntamente com outras 5 bandas. Como já estávamos com várias músicas prontas, decidimos lançar um novo trabalho já com a cara da nova formação o que resultou no CD “FUTURO SEM COR”.

Dois integrantes marcantes da banda foram você e Filemon "Xuxa" Júnior, que foram os que mais tempo ficaram na banda, sendo inclusive os fundadores da Renegados. Mas Xuxa se mudou pra Salvador. Como foi pra você botar a banda pra frente sem esse grande companheiro? E como tem sido a adaptação com os novos integrantes? 
Dani - Cara, tocar a banda sem Xuxa foi a decisão mais difícil em toda a trajetória da banda, pois embora o nome da banda e quase todas as letras sejam minhas, ele foi o grande parceiro que apoiou e mergulhou de cabeça nessa viagem, onde com a banda passamos por muitos momento loucos juntos, que chego a dizer que marcou pra valer as nossas vidas. Daí então, me vi, na responsa de tocar a banda sem ele, por conta de estar morando em salvador e ter que ficar vindo ensaiar e tudo mais.
Enfim! Tive a sorte de encontrar dois caras muito bacanas (antigos integrantes da banda Atestado de Pobreza) e juntar com o velho companheiro Reinan, que já tocava na última formação e conseguimos embarcar todos nessa nave Renegada mais uma vez na história.

A Renegados já tinha um CD lançado em 2002 chamado "Miséria e Corrupção - A verdadeira face do país: A ordem dos miseráveis, O progresso da corrupção". Agora a banda lança "Futuro sem cor". Tem como traçar um paralelo entre esses dois materiais? Qual a temática desses dois discos?
Dani - O primeiro disco tinha como título principal “MISÉRIA E CORRUPÇÃO” e o subtítulo, "A verdadeira face do país: A ordem dos miseráveis, O progresso da corrupção". e foi um CD mais cru, embora as letras sempre atacando a classe política e a crise social brasileira que também prevaleceram no segundo CD “ Futuro Sem Cor”.
No primeiro tivemos o privilégio de sermos comentados na extinta revista Rock Brigade e a crítica não foi uma das piores em relação as demais bandas que mandavam seus materiais (rsrsrs), mas foi um disco forte e que colhemos frutos até hoje, 15 anos após, por terem rendido alguns clássicos conhecidos atualmente pela cena.
Já o disco FUTURO SEM COR que acabamos de lançar, acredito, ter vindo com letras ainda mais fortes e com temas que certamente serão lembrados por muitos nos próximos anos, pelos temas tão enraizados no Brasil e no mundo. Acredito que esse CD novo vai interessar para muita gente do seguimento por reunir músicas com críticas mais consistentes ao sistema em que vivemos.



A banda fez o lançamento do novo CD no festival Overdose de Rock 3. Como foi a receptividade do público para as novas músicas da Renegados? Vocês já tocavam essas músicas nos shows, ou eram inéditas para o público?
Dani - O publico respondeu muito bem e a crítica tem sido positiva em relação a qualidade do novo trabalho, já tocamos as músicas em eventos anteriores, embora apenas no “Overdose de Rock 3” chegamos a tocar todas as faixas do CD novo.
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E agora, qual a expectativa com esse CD em mãos? Viajar pelo Brasil está nos planos? Um DVD? O que esperar da Renegados a partir de agora?
Dani - Caracas!!! Na verdade, acho que o nosso plano é não ter plano (rsrsrsrs). Vamos deixar a coisa acontecer e aproveitar o máximo das oportunidades que surgirem, talvez gravar um clipe, também ficaremos de olho nos shows fora da city que forem viáveis e tentar expandir o máximo possível esse novo trabalho. Mas uma turnê seria bem vinda.

Sou fã da Renegados, que foi uma das bandas que me influenciaram a ter uma banda de punk rock, você sabe disso. Agradeço demais a atenção, desejo sucesso nos seus projetos e o espaço é de vocês;
Dani - Valeu caro Nem, eu que agradeço a oportunidade e o apoio do selo Tosco Todo em divulgar o nosso trabalho e abraçar a nossa causa. E quero deixar claro que é muito bacana ter você como fã dos Renegados, um cara que tem uma grande história no punk rock da Bahia e uma banda que tanto contribuiu para que essa cena continue a existir em vitória da conquista e região. Nós que agradecemos a atenção em especial pela banda Renegados HC. Enfim, vamos que vamos pela atitude!

CONTATOS:

Fonte: Tosco Todo

I. Malforea - Música autoral e blues no Brasil

I. Malforea é líder da Distintivo Blue e idealizador da BLUEZinada!


Em maio de 2017 um grupo de estudantes do curso de Cinema da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia nos procurou para gravarmos uma entrevista em vídeo: estavam produzindo um documentário sobre um artista local e o foco era a música autoral, por isso buscavam mais artistas autorais para enriquecer o conteúdo. O vídeo era uma atividade de uma das disciplinas do curso, e existia ainda a possibilidade de enviá-lo a festivais de cinema.

No dia 24 do mesmo mês, I. Malforea, vocalista e líder da Distintivo Blue e editor da BLUEZinada! foi até o Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima com dois desses estudantes, Nathan Soares e Jisely Azevedo, mais especificamente na área do palco da concha acústica, onde foram gravadas as partes faladas das CCCJL Sessions da Distintivo Blue e, diante de uma câmera Canon T5i e um gravador Zoom H4n (coincidentemente os mesmos modelos usados pela banda), respondeu durante aproximadamente meia hora, algumas perguntas relacionadas à realidade do artista autoral independente no Brasil.

Historiador de formação, sempre se preocupou em manter um arquivo com tudo relacionado à banda: cartazes, repertórios, entrevistas em áudio e vídeo, fotos, gravações de ensaios, etc. Obviamente, pediu os arquivos de vídeo e áudio da entrevista. Percebendo que tinha em mãos um material interessante, que serviria como conteúdo para o próprio canal da banda e, ainda, talvez ajudar outros artistas a clarear as ideias sobre essa realidade, decidiu editar e publicar a entrevista. O resultado é o vídeo abaixo: um interessante documento, propositalmente sem cortes, para manter a originalidade. A edição consistiu apenas nas melhoria das cores, a mixagem do áudio e a inserção de texto.

O documentário completo ainda não está disponível. Os produtores já o apresentaram ao professor, mas pretendem reeditá-lo para então publicá-lo. Quando isso acontecer, claro que o postaremos aqui.






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